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O que o pré-sal tem a ensinar sobre terras raras
A Petrobrás é uma empresa que recolherá R$ 1,4 trilhão em tributos apenas no próximo quinquênio, que gera mais de 26 mil postos de trabalho a cada R$ 1 bilhão investido no pré-sal
Edição: 534
Data da Publicação: 29/05/2026
O Brasil está diante de uma
janela histórica. A crescente demanda global por terras raras - insumos
essenciais para semicondutores, veículos elétricos, energias renováveis e
sistemas de defesa - coincide com um momento em que o país detém reservas
expressivas desses minerais e ainda carece de uma estratégia industrial para
explorá-los com soberania. É nesse contexto que ganha força a proposta de
criação da TerraBras, uma estatal voltada ao desenvolvimento da cadeia
produtiva de minerais críticos.
A lógica que sustenta a proposta
não é nova, e é justamente isso que lhe confere credibilidade histórica. O
Brasil já percorreu esse caminho antes. A Petrobrás foi criada em 1953, para
organizar um setor intensivo em capital, tecnologia e risco geológico, no qual
o mercado privado, sozinho, não teria nem o horizonte de planejamento nem o
apetite para investir na escala necessária.
O resultado, décadas depois, é
uma empresa que recolherá R$ 1,4 trilhão em tributos apenas no próximo
quinquênio, que gera mais de 26 mil postos de trabalho a cada R$ 1 bilhão
investido no pré-sal e que se tornou referência global em tecnologia de exploração
em águas profundas.
O desastre da Shell que tinha seu pré-sal, mas não teve
competência
Nenhum episódio ilustra melhor
essa capacidade do que a descoberta do pré-sal. A Shell detinha seu próprio
bloco de concessão na Bacia de Santos e, diante do mesmo horizonte geológico
que a Petrobrás enxergava, decidiu não perfurar - por falta de conhecimento
técnico e receio de investir 150 milhões de dólares em uma fronteira de risco
tão alta -, então devolveu ao governo seu bloco. A estatal brasileira fez a
escolha oposta. Em 2006, o poço no bloco BM-S-11 revelou o campo de Tupi - hoje
chamado de Lula -, uma das maiores descobertas de petróleo do século XXI.
A diferença da Petrobrás e da Shell
Esse episódio não é um detalhe histórico,
é uma demonstração precisa do que diferencia a lógica pública da lógica privada
na exploração de recursos estratégicos. A Shell calculou o risco pelo critério
do retorno esperado e recuou. A Petrobrás calculou o mesmo risco pelo critério
do interesse nacional e avançou.
O resultado está aí: um campo que
já gerou mais de US$ 126 bilhões em royalties e participações governamentais e
que posicionou o Brasil entre os grandes produtores mundiais de petróleo.
Existe porque houve um Estado disposto a apostar onde o mercado hesitou.
A TerraBras parte da mesma
premissa: há falhas de mercado estruturais na mineração de terras raras - custos iniciais elevados, longos prazos de maturação, riscos geológicos e
ausência de escala - que apenas a atuação coordenada do Estado é capaz de
superar. Não se trata de substituir o setor privado, mas de criar as condições
para que uma cadeia produtiva integrada seja possível: da extração ao refino,
do refino à industrialização, da industrialização à inserção em cadeias globais
de maior valor agregado.
O argumento de que empresas
estatais seriam inevitavelmente ineficientes não resiste ao exame comparado. As
cinco maiores petrolíferas da China são estatais. A Saudi Aramco é o próprio
Estado saudita em forma de empresa. Noruega, Canadá, México e Rússia operam
suas reservas energéticas por meio de instrumentos públicos.
Nos Estados Unidos - paradigma do
liberalismo econômico -, o governo Trump acionou, em 2025, o Defense Production
Act de 1950, para direcionar a produção privada de recursos minerais em nome da
segurança nacional. A disputa por minerais críticos não é travada apenas pelos
mercados: é travada, sobretudo, pelos Estados.
O Brasil tem uma oportunidade
concreta de não repetir o erro histórico de exportar commodities brutas
enquanto importa, a preço elevado, os produtos industrializados que delas
derivam. Sem uma âncora institucional pública capaz de coordenar investimentos
de longo prazo, formar capacitação tecnológica e articular o ecossistema
industrial necessário, esse potencial tende a se dissipar, como tantas vezes aconteceu
com outros recursos naturais abundantes no país.
Criar a TerraBras é, portanto,
uma decisão de soberania. É a escolha de um país que decide agregar valor à sua
riqueza mineral, formar capacitação tecnológica interna, reduzir
vulnerabilidades externas em insumos estratégicos e se reposicionar nas cadeias
produtivas do século XXI.
A história da Petrobrás mostra
que esse caminho é possível. A janela para percorrê-lo, no entanto, não ficará
aberta indefinidamente.
Fonte economista Paulo Gala